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Maria Ulrich

“[…] autênticas revolucionárias que quisessem transformar toda a sociedade em seu redor começando por aqueles sectores onde viviam e onde se definiam as suas responsabilidades concretas.”

ULRICH, MARIA de Lima Mayer

Nascimento: Coimbra (09/03/1908)
Morte: Lisboa (25/11/1988)

In Nóvoa, A. & Bandeira, B. (coord.) (2005). Diccionário de Educadores Portugueses. Porto: Asa [858]

Biografia

Maria UlrichMaria de Lima Mayer Ulrich, filha de Genoveva de Lima e de Rui Ulrich, faz os seus estudos em França. A sua ascendência, francesa do lado materno e alemã do lado paterno, influencia toda a sua educação e cultura. A família Mayer vem para Portugal por volta de 1840. Carlos Mayer, avô de Maria Ulrich, pertencia ao grupo de “Os Vencidos da Vida”. A mãe de Maria Ulrich, que conviveu durante a infância e adolescência com os mais altos espíritos da época, herdara do pai as suas tendências culturais e sociais e desenvolveu-as de uma forma original e criativa. Considerada a mais fiel discípula de seu pai, foi uma das mulheres que mais marcaram o seu tempo, não só pela inteligência e cultura invulgares, que ressaltam nas obras que escreveu, mas também pela sua extrema elegância, originalidade e bom gosto. A família Ulrich era de origem alemã, remontando as suas origens em Portugal ao final do século XVIII. Rui Ulrich, pai de Maria Ulrich, formou-se em Direito, na Universidade de Coimbra, com 20 valores. Doutorado aos vinte e três anos, faz carreira como professor catedrático.

Maria Ulrich vive os primeiros anos da sua vida em Coimbra e Lisboa. Teve uma “mademoiselle” em casa, que foi também a sua primeira professora e, em 1921, parte para França para o Pensionnat St. Joseph, onde fez os seus estudos. Nos anos que se seguem, Maria Ulrich faz a sua vida entre Portugal e França onde frequenta vários cursos entre os quais, o de Filosofia e de Literatura Francesa. Em 1934, Rui Ulrich é nomeado para o cargo de embaixador em Londres e, com 26 anos, Maria Ulrich acompanha a sua família. Nesta cidade, frequenta todos os actos sociais e tenta, não sem dificuldade, ambientar-se e integrar-se da melhor forma. Fica fascinada com a vivência de um comportamento democrático que contrasta em tudo com o que se vivia em Portugal na época e aproveita para aprofundar a sua cultura, beneficiando da vivência na embaixada que lhe dá acesso a uma diversidade de experiências positivas e enriquecedoras. Quando em 1935 os pais regressam a Lisboa, Maria Ulrich, completamente desadaptada ao meio português, sente o vazio da sociedade que frequenta. O atraso civilizacional de Portugal, onde o regime ditatorial de Salazar fecha progressivamente o país ao exterior, torna-se para Maria Ulrich insustentável. Pensa emigrar para França, quando conhece Júlia Guedes, presidente da Acção Católica Portuguesa (uma organização já de 40 000 elementos), que determinará o rumo da sua vida. Aquele movimento vem ao encontro das suas preocupações com o desenvolvimento e o futuro de Portugal. Os seus membros eram convidados a participar de uma forma activa e individualizada numa organização fortemente estruturada e hierarquizada, o que corresponderia também à sua ansiedade de pôr em prática um ideal colectivo.

Em 1938, Maria Ulrich é convidada para dirigir um dos organismos da Acção Católica, a Juventude Independente Católica Feminina, que já estava lançada como movimento, mas que precisava, para se poder desenvolver, de chefes mais responsáveis e preparados. Empenha-se de corpo e alma na Acção Católica e, sob a influência de Júlia Guedes, a sua vida sofre uma verdadeira revolução. Maria Ulrich chega a comparar a Acção Católica ao Partido Comunista, semelhantes na forma, mas radicalmente diferentes na essência, no espírito, nas motivações e no fim a atingir. Descobre, no entanto, semelhanças na estrutura baseada na célula (ou secção), numa mesma hierarquia fortemente coesa, com uma disciplina própria projectando-se no dinamismo militante de um ideal a transmitir. Em 1985 afirma: “Não eram santinhas devotas e cumpridoras dos seus deveres religiosos que interessavam, mas, autênticas revolucionárias que quisessem transformar toda a sociedade em seu redor começando por aqueles sectores onde viviam e onde se definiam as suas responsabilidades concretas”. Foi uma verdadeira revolução para o espírito paternalista da época, ter libertado os organismos populares da tutela do meio burguês, substituindo as suas dirigentes por outras escolhidas no meio trabalhador: rural e operário.

“Todos os anos na JICF lançávamos uma campanha. Mas, de todas a que revelou o problema mais premente em Portugal foi a da Educação. Fizemos inquéritos em todo o país e os resultados impeliam-nos a empreender acções imediatas”

Foi, sem dúvida, uma batalha árdua contra as circunstâncias da época, e dentro da própria Igreja, onde alguns padres não viam com bons olhos actividades que, não sendo estritamente paroquiais, fossem fora da sua tutela e possivelmente rivais, nem aceitavam essa emancipação dos leigos, particularmente dos jovens. Maria Ulrich deixa a Acção Católica em 1950, para acompanhar a família, quando o seu pai é de novo nomeado embaixador em Londres. Nesta altura, revela já uma profunda convicção do que viria a ser o seu futuro profissional, como escreveria em 1987: “Todos os anos na JICF lançávamos uma campanha. Mas, de todas a que revelou o problema mais premente em Portugal foi a da Educação. Fizemos inquéritos em todo o país e os resultados impeliam-nos a empreender acções imediatas”. Fazendo uma análise do panorama educativo português, e considerando grave a omissão do Estado nesta matéria, Maria Ulrich, aproveita a estadia em Londres para elaborar as bases do projecto de uma escola de educadoras de infância, acreditando que poderia transformar a sociedade através de uma acção directa junto das crianças e das famílias. Toma contacto com as escolas Montessori em Londres e visita as Escolas Activas em Paris. Estuda história da educação e interessa-se, particularmente, por Rousseau, Froebel, Pestalozzi, Decroly, Claparède e Freinet. Mantém um contacto assíduo, por correspondência, com as escolas de educadoras francesas, nomeadamente com Madame Geneviève Flusin, secretária-geral do Mouvement Chrétien de l’Enfance em Paris. Quando, em fins de 1953, regressa a Portugal tem já concluído o projecto da Escola de Educadoras de Infância.

MariaUlrichEm Outubro de 1954, Maria Ulrich inaugura em Lisboa uma das primeiras escolas de educadoras do país com o apoio e a supervisão de educadoras francesas. Afirma, em 1961, em texto guardado no Arquivo da Escola: “A nossa Escola surge, independente (como tudo o que fiz na vida), sem meios sem subsídios, como uma aventura. Determinada a formar profissionais competentes, que participem activamente na sua auto-educação, e que intervenham na sociedade de modo a torná-la cada vez mais democrática nos valores que a suportam e nas acções que a concretizam. Pela formação dos educadores pretendemos chegar às crianças, porque o mundo depende dos novos, e os novos são o que for a sua infância”. A Escola de Educadoras de Infância foi, desde o seu início, pioneira nas suas iniciativas e realizações. A sua actividade pressupunha uma grande preocupação de abrangência e de qualidade nos serviços prestados à criança. Em 1979, fará o seguinte balanço sobre a EEI: “pretendeu sempre formar acima de tudo valores humanos, com um projecto de vida a propor… a transmitir, antes de mais à infância […] mas também para além desta às suas famílias e a toda a sociedade” […] “É preciso frisar que diferentemente de outras Escolas congéneres, esta Escola quando foi fundada não visou apenas formar jardineiras para prover às necessidades existentes nesse campo. O nosso objectivo era muito mais amplo e universal: o de contribuir por todos os meios para a melhor solução do problema da educação em Portugal. Mas para educar é preciso revermos a nossa própria educação. Era isso que queríamos proporcionar às nossas alunas. Pretendíamos um verdadeiro Humanismo, e nenhum Humanismo existe que não assente num Absoluto – A Escola foi sempre, declaradamente e substancialmente, cristã. Um método de quem vinha imbuída e deslumbrada pelos seus resultados foi a base da nossa pedagogia activa, nesta educação de adultos: Ver, Julgar, Agir. Ver – observar a Realidade atentamente – Julgar – Saber fazer um Juízo de Valores e, não ficando no discurso palavroso, lançar a Acção imediata para tentar solução adequada”.

“A nossa Escola surge, independente (como tudo o que fiz na vida), sem meios sem subsídios, como uma aventura. Determinada a formar profissionais competentes, que participem activamente na sua auto-educação, e que intervenham na sociedade de modo a torná-la cada vez mais democrática nos valores que a suportam e nas acções que a concretizam. Pela formação dos educadores pretendemos chegar às crianças, porque o mundo depende dos novos, e os novos são o que for a sua infância”

Em 1957, Maria Ulrich funda a Associação de Pedagogia Infantil, associação particular sem fins lucrativos, mais tarde declarada de utilidade pública e que é constituída pela Escola de Educadoras de Infância e pelo colégio “O Nosso Jardim”. Das inúmeras valências, actividades e iniciativas desta Associação será de referir a criação, em 1969, da biblioteca infantil “À Descoberta”, a partir da oferta de 360 volumes feita pela Câmara Municipal de Lisboa e valorizada com uma segunda oferta da mesma autarquia em 1973. Esta biblioteca estava aberta a toda a comunidade. Em 1974 é inaugurado, na Escola de Educadoras de Infância, um Centro de Documentação, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, que conta hoje com mais de 7 000 títulos e 30 publicações. Maria Ulrich deixou ainda institucionalizada a Fundação Maria Ulrich, destinada a dar apoio e desenvolver acções no âmbito da educação e da cultura dentro de uma perspectiva humanista cristã, e a Casa-Museu Veva de Lima, casa onde viveram os seus pais, e cujo espólio doou em parte à Câmara Municipal de Lisboa para que se criasse um “centro cultural vivo”. A Casa Veva de Lima pretendia continuar a antiga tradição familiar dos encontros culturais herdada dos “Vencidos da Vida” e mantida por Maria Ulrich ao longo de toda a sua vida.

Maria Ulrich era uma mulher culta e viajada, que teve oportunidade de avaliar as carências da sociedade portuguesa. As suas opções pedagógicas foram influenciadas pelo meio educativo europeu. Mais do que uma pedagoga, foi sobretudo e essencialmente uma educadora que soube dar um cunho estratégico ao seu discurso e construir instrumentos concretos de intervenção abrindo assim novas perspectivas para a educação de infância. Maria Ulrich adoptou uma filosofia humanista cristã. Chamou a atenção para a importância dos primeiros anos de vida e para o valor da pessoa humana numa concepção dinâmica de desenvolvimento. Para ela, o ser humano é também chamado a viver numa sociedade, competindo-lhe contribuir para o seu progresso colectivo e para a sua elevação. Responsabilidade de progresso pessoal e responsabilidade de progresso social são duas direcções complementares e solidárias. Isto impõe aos educadores o dever de criar condições ambientais propícias à formação do espírito comunitário, à vida de equipa, ao respeito e ajuda mútua; numa palavra, criar condições de disciplina e estímulos autocorrectivos exteriores à própria intervenção do educador. O Projecto de Escola idealizado e realizado por Maria Ulrich revela uma grande modernidade de pensamento e uma profunda percepção da realidade. A aposta na construção autónoma do ser, na liberdade, na responsabilidade e na participação deu ao projecto de Maria Ulrich uma coerência que justifica a importância que tem ainda hoje na formação dos educadores.

Bibliografia
  • Preparação cristã para a vida familiar (Conferência realizada no dia 30 de Outubro de 1938, em sessão da Acção Católica), Lisboa, 1938.
  • “Importância da educação na segunda infância”, Traço de União, n.º 3, 1966, pp. 3-7.
  • “A nossa grande missão”, Traço de União, n.º 4, 1967, p. 1. Uma figura, um sorriso, uma época, Lisboa, s/d. n Brotéria. A Família. Traço de União.
Trabalhos sobre o(a) autor(a)
  • Bodas de prata da Escola de Educadoras de Infância (1954-1979), Lisboa, 1979. Olga Simões Carvalho (org.),
  • Uma educadora do século XX (1908-1988), Lisboa, 1998. Luísa Vian Alves,
  • Quem foi Maria Ulrich, Lisboa, Monografia apresentada à Escola Superior de Educadores de Infância Maria Ulrich, 1999.
Biógrafo(a)

Luísa Vian Alves / Elísio Gala